A “roleta russa” da economia mundial

1 octobre 2008 por admin 

Já nos habituámos à ideia de que, quando sobem os preços do que comemos, do que vestimos e das habitações onde vivemos, a culpa é do aumento do preço do petróleo.

Além das implicações directas no preço dos combustíveis, sentida por todos nós quando tentamos encher o depósito do “carrito”, também nos disseram que o petróleo aumenta: porque os chineses e os indianos consomem muito; porque há tempestades no Golfo do México ou no Mar do Norte ou uma greve nas refinarias.

De vez em quando alguém, especialista na matéria, vem dizer-nos, (quase em sussurro…), que não é só isso!…Há também muita especulação financeira em torno das matérias-primas, gente que ganha dinheiro sem investir na produção de bens, …jogos da bolsa, …stocks de petróleo comprados a baixo preço e vendidos ao preço actual, etc.

Claro que, logo a seguir, outros comentadores de ar convincente, nos “descansam”, afirmando que o mercado se regula a si próprio, que tudo volta à calma anterior, que não há motivo para preocupações, que tudo isto não passa de uma crise passageira.

No entanto, nós, os leigos pagadores, que até já pensávamos conhecer alguma coisa destas “equações económicas”, começamos a duvidar desta “super auto-regulação” dos mercados, uma vez que, os combustíveis, neste carrossel mercantil do “sobe e desce”, continuam só a subir para o consumidor e duvidamos, cada vez mais, do antigo regresso à estabilidade dos preços.

Ainda não refeitos do “choque petrolífero”, ouvíamos falar da crise do “sub-prime” nos Estados Unidos, com o mesmo sentimento de quem escuta uma notícia de má colheita agrícola na “Cochinchina”.

Para o cidadão comum de outros continentes, o problema do crédito mal parado dos americanos é lá com os americanos! Porque é que isso nos iria incomodar? Estamos tão longe?!…

Os políticos, de forma sorridente, amenizavam as nossas preocupações, os financeiros afirmavam que o pior já tinha passado e os bancos exibiam orgulhosamente os seus lucros.

E todos nos habituaram a pensar que, se houvesse um problema grave, em algum grande banco americano, o governo do rico “Tio Sam” intervinha e resolvia o problema.

Qual não é o nosso espanto, quando nos noticiaram de que, um grande banco do Estados Unidos abre falência, que o “tio rico” nada faz para o salvar e uma boa parte dos bancos europeus, envolvidos em negócios congéneres, começam a anunciar muitos milhões de euros de prejuízo.

Desta vez, as autoridades europeias na matéria, esforçam-se por demonstrar que, o que se perde, não é assim tão grave (?), que o “crash” americano não vai arrastar o mercado europeu, que não há motivo para grandes preocupações.

No entanto e nas entre linhas, vão deixando antever que a actual situação põe em causa o crescimento económico, que paira uma ameaça de recessão, etc., …etc!

Como, e à força de tanta linguagem economicista dos jornais e telejornais, nós vamos apreendendo qualquer coisa deste estranho e complexo mundo económico-financeiro, começamos a apercebermo-nos de que, o resultado disto tudo, é mais uma factura a pagar pelo simples cidadão. Se a ele não incomoda as percas em bolsa, (não tem dinheiro para esses jogos perigosos…) já não é a mesma coisa em relação aos bens que tem de consumir e ao emprego que tem de manter. E uma recessão económica tem, necessariamente, graves consequências na nossa capacidade de subsistir!

O que nós todos percebemos hoje muito melhor (para quem já não o percebia há muito tempo…), é que todos estes “crânios” das finanças planetárias, arrastaram a economia mundial para uma “roleta russa”, retirando-lhe o valor do trabalho e da matéria essencial ao produto acabado, para o substituir pelo “valor virtual” das suas especulações.

Já sabemos o resto da história, se nos for contada com os mesmos argumentos do passado! O mercado acabará por “regularizar” a situação e a vida continua!

O que se esquecem de nos dizer é a panóplia de imensos sacrifícios que são pedidos ao cidadão, que vive apenas do seu trabalho, para já não falar das “sensibilidades” bélicas que aparecem associadas, quase sempre, nestes períodos e que conduziram os povos a enormes desgraças.

Espero que, desta vez e a avaliar pelas observações críticas que tem sido feitas à “miraculosa” auto-regulação dos mercados, o futuro possa corrigir esta autêntica fraude das teorias liberais.

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