Do Luxemburgo - Crónica de Luís Barreira Um mundo por inventar!?…
24 novembre 2008 por admin
Na sua maior parte, as crónicas semanais deste espaço, têm sido dedicadas a assuntos e factos ligados ao nosso quotidiano de “sabores e dissabores”.
Porque os temas escolhidos estão na ordem do dia e porque nos suscitam interrogações, aprovações ou reprovações, tenho exprimido a minha opinião, tentando não cair na insensatez de falar, apenas por falar ou deixar de dizer o que penso, com receio de incomodar alguém.
Desta vez talvez vá incomodar alguém, porque vou falar de si, de mim e de muita gente que nos rodeia.
E isto porque, os factos circunstanciais que conduziram o nosso chamado «mundo moderno» a uma profunda crise, que ninguém ainda sabe como acabará, são a causa e o efeito da forma como nos habituámos (e nos habituaram…) a viver.
Num espaço de menos de 50 anos, a nossa vivência alterou-se de tal forma que, hoje, nos sentimos “despidos” se não possuirmos todos os objectos de “culto” da nossa civilização consumista.
Isto é tão verdade que sofremos amargamente se não temos: casas, carros, electrodomésticos, telefones portáteis, televisores, computadores, dinheiro para férias e restaurantes e toda uma panóplia de consequentes produtos consumidos pela actual sociedade.
Sentimo-nos irrealizados, tristes, insatisfeitos, pobres e tantas vezes revoltados, se não podemos adquirir o último grito da moda, da tecnologia ou algum símbolo relevante do modernismo.
Raras vezes olhamos para trás, revendo a vida da maioria dos nossos pais e avós, das dificuldades porque passaram, mas também da dignidade com que viveram!
É bem certo que a velha frase “pobres, … mas honrados” não traz felicidade a ninguém e estas minhas palavras não são, de forma alguma, uma apologia da pobreza. No entanto, se o futuro incerto que nos espera se traduzir numa diminuição da nossa capacidade de comprar, como habitualmente, não há que entrar em pânico, nem desesperar.
Uma boa parte daquilo que consumimos, em quantidade e qualidade, não são bens essenciais à vida e à nossa paz interior. Claro que nos dão bem-estar, que nos fazem sentir momentaneamente realizados mas, se for caso disso, podemos viver (e talvez melhor…) sem os milhares de superficialidades que nos rodeiam.
Mas, …o mais difícil, não será convencer aqueles cuja vida já foi madrasta, mas sim as gerações mais jovens!
Educados num mundo apelativo ao consumo sem restrições e a projectar as suas vidas pelas montras do “leve agora e pague depois”, as novas gerações sofrerão muito mais o impacto de uma crise, que lhes condicione o poder de aquisição, de tudo a que se habituaram.
O primeiro grito será de revolta! Revolta contra as falsas expectativas, que os anestesiaram para os verdadeiros problemas da vida e da sociedade, revolta contra as promessas que lhes foram feitas, revolta contra um mundo que parece estar a fazer “marcha-atrás”!
Parece mas não está! As sociedades humanas não recuam no tempo, estão em constante evolução, por muito conturbados que sejam alguns dos seus períodos. Se alguma coisa podemos aproveitar, deste tipo de crises que actualmente estamos a viver, é a possibilidade de reformulação do nosso tipo de vida e, para isso, todos temos de contribuir.
Praguejar contra tudo e contra todos não é solução e culpabilizar quem nos dirige não é suficiente, se não for acompanhado de uma alteração dos nossos hábitos, tantas vezes viciados!
Não será um exercício fácil. Exige uma profunda tomada de consciência, da forma física e espiritual da utilidade da vida e da consequência dos nossos gestos, tantas vezes iludidos pela “febre” desenfreada do consumo. Um consumo que tem esmagado os interesses de quem verdadeiramente produz riqueza material e imaterial, quer se encontrem nos serviços, fábricas e campos, ao nosso lado ou em continentes distantes, um consumo que, em geral, só tem dado lugar ao enriquecimento de todo o tipo de oligarquias especulativas.
Temos todos de trabalhar para construir uma sociedade mais justa, equilibrada e feliz porque, como disse inicialmente neste ping-pong de causa/efeito, se não modificarmos os nossos maus hábitos, estaremos a alimentar a origem dos nossos próprios males.








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