Literatura : José Saramago diz que prémios e glória são acidentes, melhor recompensa são cartas dos leitores

24 novembre 2008 por admin 

Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, fala de "A Viagem, do Elefante"

Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, fala de

O escritor José Saramago defende que os prémios e a glória são “acidentes” e que, embora não escreva para obter uma recompensa, se alguma há, são as cartas que recebe dos leitores.
“Em primeiro lugar, não se escreve para ter uma recompensa, a não ser naquele sentido óbvio: eu escrevo, o livro é feito, põe-se nas livrarias, vende-se, espero que uma parte desse dinheiro venha para mim, autor. Mas isso nem sequer é uma recompensa, é a justa retribuição de um trabalho. Justa, nem sequer se pode dizer justa, porque não sabemos o que seria uma justa retribuição num caso como este”, disse o prémio Nobel da Literatura português, em entrevista à agência Lusa.
Na sua opinião, “o que não pode ser entendido como recompensa é a fama, a glória, se se quiser até o Prémio Nobel”.
“Não vamos tomá-los como recompensas. São acidentes. Eu não decidi ser famoso, quem decidiu tornar-me famoso foi a vontade dos outros, os leitores, a crítica. Não se procuram recompensas, procura-se o trabalho bem feito, que possa ser considerado necessário, até, aos leitores”, sustentou.
“Eu recebo muita correspondência de leitores e se há alguma coisa a que se pode chamar recompensa é a essas cartas. Cartas que agora, por fim, podem chegar por e-mail, depois de tanto tempo em que era o carteiro que as levava a casa”, observou.
Saramago considera que, “quando tanto se fala nas universidades da teoria da recepção, se se quiser estudar o problema de como é que a obra é recebida, então, leiam-se as cartas dos leitores. Muita teoria, muita teoria, mas vamos lá ver como é que isso se manifesta na prática”.
“Eu costumo dizer que a obra de um escritor não estará completa se não forem publicadas as cartas dos seus leitores”, sublinhou.
“E aqui - prosseguiu - não há que tomar as cartas só para dizer ‘ah, pois, o que você quer é tornar públicos os elogios que lhe fazem’, porque as melhores cartas não são aquelas que dizem ‘gostei do seu livro’. Também não são aquelas que dizem ‘não gostei do seu livro’. São aquelas em que o leitor fala de si mesmo e isso é que é realmente notável”.
“Tenho cartas que são verdadeiros prodígios da comunicação. E são pessoas que não são escritoras: simplesmente, sabem escrever e sabem comunicar as suas emoções e os seus sentimentos. E não foi uma, nem duas, nem três vezes que eu cheguei ao fim de cartas como essas a chorar. Isto sim, isto é o que vale a pena”, concluiu.

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