Algo está a mudar e a crise está a “ajudar”!…

11 juin 2009 por admin 

Do Luxemburgo - Crónica de Luís Barreira

Do Luxemburgo - Crónica de Luís Barreira

Pode parecer contraditório afirmar que, de alguma forma, a actual crise está a ajudar-nos.
No entanto, se considerarmos que a difícil situação que o mundo atravessa era inevitável, face à falta de controlo do nosso sistema económico-financeiro, que se afundava num mar de astúcias especulativas, o retomar da discussão sobre a moral social e as suas responsabilidades, que começa a ser o tema predominante das discussões públicas, acaba por ser um bom sinal.
Com efeito, se alguns pensavam que, com alguns retoques “cosméticos”, a situação poderia recompor-se, hoje, avaliada a dimensão dos problemas e a forma de os evitar, não deixa alternativas que não passem pela moralização das nossas sociedades, respectivas instituições e pessoas.
No caso português isso é notório. Os três pilares da nossa democracia: o poder legislativo, executivo e judicial, estão debaixo de “fogo”!
Se antes, os “inocentes” programas do tipo “Big Brother”, entretinham o público curioso e ávido de voyerismo, com actores do “jet set” e candidatos à mesma palermice, hoje, o apetite devorador do grande público e dos media em geral, está centrado nos actores sociais do poder e nas suas novelas de interesses pessoais.
Se os escândalos de má utilização do poder são a ordem do dia dos jornais, rádios e televisões, não é menos verdade igualmente que, para alguns destes fazedores de opinião, interesses menos dignificantes e oportunistas, acabam por atirar para o “tribunal da opinião pública”, ansioso por apontar culpados, muitas acusações inconsistentes e sem fundamente.
Mas enfim, como “não há bela sem senão” e independentemente do efeito perverso do sensacionalismo que, levado à exaustão, pode conduzir-nos a uma total descrença em tudo e em todos, as pessoas estão muito mais atentas e críticas aos males da sociedade e de quem a dirige e, isso, é muito bom!
É salutar para a saúde da nossa cinzenta sociedade, ouvirmos, vermos e lermos políticos, juristas, intelectuais, religiosos, pensadores de toda a natureza e até o Sr. “Francisco do café”, clamarem pela necessidade de reafirmarmos valores de referência, essenciais à nossa consciência colectiva e vivência comum.
Finalmente e pelo eco da nossa imprensa livre, uma das felizes consequências de Abril de 74, a população portuguesa começa a detectar o que tem estado na origem de tantos dos nossos problemas (não todos, claramente…) e a desenhar o quadro da personalidade e carácter daqueles que nos devem dirigir e a repudiar, sem excepção, todos os comportamentos criticáveis, quer dos responsáveis pelo funcionamento das nossas instituições, quer pelos disfuncionamentos das mesmas.
Expressões como “Ele rouba, mas faz obra…” têm de ser banidas do nosso léxico, sempre que se trata de avaliar o desempenho dos nossos dirigentes.
O “poder”, numa sociedade democrática, seja ele pessoal, partidário ou de qualquer instituição, só se justifica se for exercido em função do bem colectivo. Os partidos, os dirigentes e respectivas instituições são uma emanação da sociedade e não o seu contrário.
Nenhuma razão, não afectando outros povos, pode inviabilizar a solução dos problemas do nosso povo, nomeadamente as de carácter eleitoral, perca de poder pessoal, de grupo ou de simples notoriedade pública. O “poder” deve subordinar-se causa pública e ser assumido com modéstia, honestidade, entrega, dinamismo e espírito de abertura aos restantes actores sociais. Nenhum cargo público ou partido político, mesmo maioritário, pode arrogar-se da exclusividade da verdade e nenhum homem ou mulher, detentor de responsabilidades no seio de uma instituição, deve reagir de forma autista à sua consciência ética, para obedecer cegamente à disciplina partidária.
A elevação moral da nossa sociedade e dos seus agentes é uma urgência!
Saibamos nós tirar as devidas leituras do que nos tem acontecido (e não tem acontecido…), para que a mudança das nossas atitudes, do mais simples cidadão ao mais elevado dirigente, possam conduzir a nossa sociedade, a um estatuto de maior dignidade e desenvolvimento.
Muitas vozes (e não são “vozes de burro”…) começam a publicitar as suas ideias sobre o tema. É preciso que elas se multipliquem e “varram” o País como uma lufada de ar fresco, afastando as nuvens poeirentas que ensombram a vida dos portugueses.

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