Nova biografia de D. Manuel II revela um Rei atento e cuidadoso e não um tonto piedoso da propaganda republicana
16 juin 2008 por admin · Deixar um comentário
D. Manuel II foi um monarca “atento, preocupado, cauteloso, mas não um tonto, piedoso e orientado pela mãe”, como acusavam os republicanos, sustenta a historiadora Maria Cândida Proença, autora de uma biografia do último Rei de Portugal.
“D. Manuel II era um moderador, cauteloso sem dúvida, e profundamente preso ao juramento que fizeram à Carta Constitucional, a 06 de Maio de 1908, quando assumiu a coroa”, disse a investigadora Maria Cândida Proença à agência Lusa.
A historiadora garante que o monarca “não era o tonto que a propaganda republicana pretendeu fazer dele”, e lamentou o facto “da sua personalidade e acção serem pouco conhecidas dos portugueses que fazem dele uma outra ideia”.
A sua curta acção política como soberano, de 1908 a 1910, “demonstra preocupação com o país”.
“Estudava as pastas até altas horas da noite, e era atento à situação política, pois tentou travar o avanço republicano, ao fazer uma aliança com os socialistas, procurando cativar para a Coroa as massas populares e o operariado”.
Para esta biografia que levou cerca de seis meses a concretizar, a historiadora utilizou dois fundos documentais inéditos, o espólio de D. Manuel II e o que se encontra depositado na Associação Cultural da Casa de Sabugosa e S. Lourenço.
Segundo a historiadora, estes dois núcleos documentais “deram achegas muito importantes para compreender melhor não só personalidade D. Manuel como os seus pais e várias personalidades da época”.
“Estes documentos dão, por exemplo, novas pistas relativamente ao Pacto de Dover que estabelece a pretensão ao trono [assinado em 1912 pelos dois ramos da família de Bragança]“.
Cândida Proença acrescentou ainda que “são muito interessantes as cartas trocadas entre o Rei e o marquês de Sobral, e também com Henrique de Paiva Couceiro, que tentou reinstaurar a monarquia”.
“O Rei, relativamente a Couceiro, não o apoiou abertamente, pois foi sempre cauteloso. Defendia antes uma campanha de esclarecimento que naturalmente faria desejar o regresso da monarquia. Defendia também que os monárquicos deviam ir conquistando lugares no Parlamento e de destaque na sociedade”, disse.
Relativamente a esta biografia, agora editada pela Temas & Debates, Maria Cândida Proença afirmou que procura “ser esclarecedora relativamente à ideia feita do monarca pela propaganda republicana, traz novos dados da sua atitude política durante o exílio em Inglaterra, e a sua acção na Cruz Vermelha Internacional”.
“D. Manuel tinha um grande amor a tudo o que era português e teve sempre em primeiro plano os interesses patrióticos e dos portugueses, e não os seus”, acrescentou.
D. Manuel II assumiu a trono aos 18 anos, após o assassinato do pai, o Rei D. Carlos, e o seu irmão mais velho, D. Luís Filipe, a 01 de Fevereiro de 1908, interrompendo a sua carreira naval à qual estava predestinado.
A 04 de Setembro de 1913 casa em Singmaringen (Alemanha) com a princesa Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen, sua segunda prima, pois ambos eram bisnetos da Rainha D. Maria II e do príncipe consorte D. Fernando. O Rei morreu a 02 de Julho de 1932 em Twickenham (Inglaterra) não deixando descendentes, assumindo a pretensão ao trono, de acordo com o Pacto de Dover, D. Duarte Nuno de Bragança, neto de D. Miguel I.
Histórias do fado
1 juin 2008 por admin · Deixar um comentário
Já se sabe da Severa - que se foi tornando em mito nos anos que se seguiram ao seu passamento - mas afinal quem foram os outros fadistas pioneiros, logo nas décadas de 1840, 1850 e 1860? Pinto de Carvalho e Alfredo Pimentel, autores, respectivamente, de “História do Fado” e “A Triste Canção do Sul”, publicadas logo no início do século XX, dão uma ajuda preciosa nesse processo de recenseamento que também toma conta de parte do sétimo capítulo de “Para uma História do Fado”, o estudo de Rui Vieira Nery que vem sendo publicado na colecção “O Fado do Público”.
A Severa enquanto mito encontra justificação até no facto de as outras fadistas conhecidas do seu tempo e dos anos seguintes serem também suas companheiras, não só no ofício do fado mas também no da prostituição. Partilham igualmente uma vida repleta de episódios picarescos e a tragédia de todas terem morrido precocemente, ainda que pouco mais se saiba da sua história, para lá do aplauso com que, nesse tempo, foi brindada a sua arte de fadistas.
Carlota Scarniccia, ou a Escarniche, era de origem italiana, nascida no seio de uma família respeitável e até tocava piano. E foi a própria família, de acordo com a moralidade da época, quem repeliu publicamente a sua dedicação ao fado e à prostituição, mandando inclusivamente publicar num jornal, em 1847, que o uso que fazia do apelido era indevido. Outras prostitutas com talento fadista eram a Joaquina dos Cordões, a Chicória, a Borboleta (ou Bebiana Vieira de Castro, que se dizia irmã de um deputado).
Também proeminente no seu tempo era a Custódia que compôs e cantou o “Fado da Custódia”, passado à guitarra pelo seu habitual acompanhante, o Paixão. Do seu reportório sabe-se que ainda faziam parte o “Fado Persiganga” e o “Fado Anadia”, um dos poucos que sobreviveu até aos nossos dias, interpretado notavelmente por Maria Teresa de Noronha, nos anos 50 do século XX. Ainda de 1860, há a destacar a Cesária, a primeira não prostituta a salientar-se no fado. Engomadeira de profissão, em Alcântara, tornou-se uma quase estrela naquele tempo, só batida pela Severa na memória dos admiradores do fado. Ser-lhe-ia dedicado o “Fado da Cesária”.
Quanto aos homens, os primeiros cantadores são José Norberto (o Saloio de Campolide), o Sales Patuscão (moço de forcados do Conde de Vimioso e presumivelmente autor do “Fado do Vimioso”), o Sousa do Casacão e o já citado Paixão, sabendo-se que estes dois últimos tanto cantavam como tocavam a guitarra portuguesa. Referência ainda para Pitalcante, que alegadamente frequentou o Conservatório, façanha então inédita para qualquer outro fadista.
Outro dos pioneiros é António Maria Eusébio, mais conhecido por o Calafate, de Setúbal, muito popular devido à sua arte repentista. Nasceu em 1820 e viria a falecer 91 anos mais tarde, já sob a protecção de figuras da literatura portuguesa como Guerra Junqueiro. Um certo erotismo cru e infantil eram a marca da sua abundante produção poética. Muitos mais são citados por Tinop e Pimentel, todos eles partilhando a condição marginal ou proletária, o que é suficiente para estabelecer o tecido social em que se cultivava o fado nos bairros populares de Lisboa. No seu meio, são conhecidos por alcunhas, pela profissão que levavam ou até pela cor da pele. Nessas listagens encontram-se ainda o Epifânio Mulato, o Preto da Tia Leocádia ou a Preta Cartuxa, o que dá conta da forte presença africana nestes bairros de Lisboa, sublinhando a sua importância no fado tal como ele existia na Lisboa de meados de oitocentos.
Ao contrário do que acontece hoje, estes fadistas não são profissionais, pelo menos segundo a conotação que actualmente é dada ao termo, pois não praticam o fado senão por lazer, entretenimento e por razões de convívio. Ou seja, o fado funcionava para cada um destes personagens como uma forma identitária - individual ou colectiva - e nunca como um modo de vida.
Ainda no sétimo capítulo de “Para uma História do Fado”, Vieira Nery debruça-se sobre os seus instrumentos predilectos, analisando a forma como o cravo e o pianoforte foram sendo substituídos, ainda nos salões, ainda no tempo do lundum e das modinhas, por instrumentos como a viola e a hoje chamada guitarra portuguesa, introduzida em Portugal através da comunidade inglesa sediada no Porto.
A derivação social do fado desde a marginália e a classe proletária até aos intelectuais, boémios e jornalistas, também é tratada neste capítulo, realçando a forma como chegou (regressou?) aos salões da nobreza e aos teatros de revista frequentados pela classe média. Um alargamento da sua base social que mereceu críticas de alguns dos seus cultores, já então agastados com o seu desvirtuamento.
O sétimo número da colecção “O Fado do Público” apresenta ainda uma colectânea de fados, canções e baladas de Coimbra cuja selecção é da responsabilidade de José Anjos de Carvalho. Entre os temas escolhidos contam-se “Sonhar contigo oh Coimbra” de Luiz Goes, “Saudades de Coimbra” de Edmundo Bettencourt, “Quando os sino dobram” de Augusto Camacho, “Fado da ansiedade” de António Menano, “São tão lindos os teus olhos” de Fernando Rolim, “Fado Hilário” de Alexandre Herculano, “Canção das lágrimas” de Fernando Machado Soares, “Balada da torre d’Anto” de Luiz Goes, “Coro dos caídos” de José Afonso, “Solitário” de António Bernardino, “Vento não batas à porta” de Fernando Rolim e “Tempo que não passa” de José Mesquita. Esta incursão pelo fado de Coimbra vem acompanhada, além de mais um capítulo de
Textos de António de Almeida Santos
Primavera de Praga/40 anos : Quando os tanques soviéticos esmagaram o “socialismo com rosto humano”
1 mai 2008 por admin · Deixar um comentário
Faz 40 anos que nasceu a efémera Primavera de Praga , uma série de intenções reformistas na então Checoslováquia comunista que desagradaram à potência dominante da região, a União Soviética (URSS), que as esmagou com uma intervenção militar brutal poucos meses depois. No dia 05 de Abril de 1968, há 40 anos, a nova direcção do Partido Comunista da Checoslováquia, chefiada por Alexander Dubcek, tornou pública uma série de propostas com vista a reformar o sistema comunista imposto ao país pela URSS, após a Segunda Guerra Mundial (1941-1945), por pretender criar um “socialismo com rosto humano”. Não obstante os reformadores nunca terem posto em causa o socialismo e a supremacia da URSS, este processo, conhecido por Primavera de Praga, foi esmagado pelas tropas e tanques do então Pacto de Varsóvia, organização militar e de defesa equivalente à NATO, liderada à época pela União Soviética.
Ao contrário dos levantamentos na República Democrática Alemã, em 1953, e na Hungria, em 1956, o movimento de Praga não tinha como objectivo restaurar o capitalismo, mas antes libertar o socialismo da pesada herança estalinista, procurar novos caminhos de desenvolvimento para o sistema, tendo em conta experiências como a “autogestão social” na Jugoslávia ou a social-democracia nos países do norte da Europa.
Os anos 60 do século 20 foram uma época de expectativas e de esperanças no chamado “campo socialista”, dominado pela União Soviética e com os seus satélites políticos na Europa do Leste.
Esse ambiente, também conhecido pelo nome de “degelo”, foi criado pelas decisões do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, realizado em 1956, que denunciou os numerosos crimes do período estalinista, bem como pelas reformas económicas encetadas por Alexei Kossiguin, então primeiro-ministro soviético.
O próprio Dubcek assistiu directamente a esses processos, pois viveu longos anos na URSS e frequentou mesmo a Escola Superior junto do Comité Central do PCUS. Isto teve também influência na aceitação da eleição de um eslovaco para dirigir o Partido Comunista da Checoslováquia, pois Moscovo via nele uma figura “controlável”, devido ao seu carácter flexível.
As propostas de reformas estavam já elaboradas no início de 1968, mas, até Abril, a direcção do Partido Comunista, envolvida na divisão de cargos, não ia além de palavras gerais sobre democracia, liberalização, etc.
“Durante três meses, a direcção do partido tratava de questões da repartição de cargos na cúpula do aparelho do partido e do Estado e, por isso, era impossível dar início ao programa de reformas. A sociedade não podia ficar à espera do fim da luta pelos cargos de ministros e secretários do CC. Os problemas acumulados durante muitos anos começaram a ser discutidos abertamente”, escreveu Znedek Mlynarj, um dos mentores da política de reformas na antiga Checoslováquia.
O Partido Comunista da Checoslováquia perdia tempo e cedia a direcção da luta a forças políticas não comunistas. No mês de Junho, a Liternární Listy (Gazeta Literária) publica o texto “Duas Mil Palavras”, escrito por Ludvík Vaculík e assinado por personalidades de todos sectores sociais, pedindo a Dubcek que acelerasse o processo de abertura política. Eles acreditavam que era possível transformar, pacificamente, um regime ortodoxo comunista numa social-democracia.
Mas a direcção comunista vacilava entre o movimento social no país e a reacção da URSS face às mudanças.
Vaclav Havel, um dos dirigentes da Primavera de Praga, escreveu a propósito: “Eles (dirigentes comunistas) encontravam-se num estado de esquizofrenia permanente: simpatizavam com o movimento social crescente e, ao mesmo tempo, receavam-no, apoiavam-se nele e, simultaneamente, queriam travá-lo. Eles queriam abrir a janela, mas temiam as correntes de ar… Eles simplesmente foram atrás dos acontecimentos e não os dirigiram…Cativos das suas ilusões, eles tentavam convencer-se que conseguiriam explicar isso à direcção soviética…”.
Em finais de Março de 1968, o CC do PCUS envia aos seus militantes informação confidencial sobre a situação na Checoslováquia, que, no fundo, já fazia prever o posterior desenrolar dos acontecimentos.
“Na Checoslováquia, aumenta o número de intervenções de elementos irresponsáveis que exigem a criação de uma “oposição oficial”, o manifesto de tolerância para com as ideias e teorias anti-socialistas”, lê-se na nota.
Mas o pior no rol de acusações vem a seguir: “Os círculos imperialistas tentam utilizar os acontecimentos na Checoslováquia para desacreditar a política do PCCH e todos os êxitos do socialismo no país, para abalar a aliança da Checoslováquia com a URSS e outros países socialistas irmãos”.
A 16 de Agosto de 1968, o Bureau Político do CC do PCUS aprova o envio de tropas do Pacto de Varsóvia para “repor a ordem” na Checoslováquia. Entre Março e Agosto, Moscovo envolveu-se numa maratona de conversações com os dirigentes da Checoslováquia e dos países do Tratado de Varsóvia a fim de definir o rumo a tomar.
É de assinalar que, no “campo socialista”, não havia unanimidade quanto à intervenção armada. Nicolai Ceauscescu, então Presidente da Roménia, estava frontalmente contra e Janus Kadar, dirigente da Hungria, vacilou muito devido à trágica experiência do seu país em 1956.
A 20 de Agosto de 1968, 200 mil soldados e 5 mil tanques do Pacto de Varsóvia invadiram o país e controlaram rapidamente os pontos nevrálgicos do país, mas os invasores tiveram dificuldade em encontrar “judas” na direcção do Partido Comunista da Checoslováquia para formar o Governo do país. As “forças saudáveis”, como os seus aliados eram designados por Moscovo, tiveram de se refugiar na Embaixada Soviética em Praga.
“As forças saudáveis estão desnorteadas, não têm força suficiente, nem no partido, nem no país”, comunicava ao Kremlin Konstantin Mazurov, membro do Bureau Político do CC do PCUS, que se encontrava em Praga.
Vladimir Lukin, político russo que trabalhava em Praga na sede da revista comunista “Paz e Socialismo”, recorda: “Os nossos soldaditos mandaram-nos parar numa operação stop… Que procuravam? Armas? Claro que não, porque ninguém podia ter armas na Checoslováquia socialista. Procuravam literatura, e não uma qualquer, mas editada pelo Partido Comunista da Checoslováquia. Era bastante ridículo: as tropas soviéticas à procura de literatura comunista”.
Alexander Dubcek é levado para Moscovo e, a fim de salvar a situação, assinou o chamado Protocolo de Moscovo, que definia os parâmetros da “normalização” da situação no país e, no fundo, significou o fim do processo de democratização. Em Abril de 1969, Dubcek é substituído à frente do partido por Gustav Hussak.
Em protesto contra o fim das liberdades conquistadas, o jovem Jan Palach ateou fogo ao próprio corpo numa praça de Praga em 16 de Janeiro de 1969.
A intervenção soviética provocou uma forte crise no movimento comunista internacional. Partidos comunistas, como o português, defendiam e continuaram a defender então que a Primavera de Praga não passava de uma das muitas manobras do imperialismo para enfraquecer o sistema socialista. Outros, que depois se tornaram conhecidos por “eurocomunistas”, viram no mesmo acontecimento aquilo que poderia conduzir ao “socialismo com face humana”.
O Direito Internacional foi “enriquecido” com a então nova doutrina da “soberania limitada” de Brejnev, que o actual Kremlin continua a utilizar no espaço pós-soviético.







